“Nunca
pensou ofendê-lo, jamais magoá-lo. Seu Nacib era bom, melhor não
podia ser, no mundo não havia. Gostava dela, bem-querer de verdade,
loucura de amor. Um homem tão grande, dono de bar, com dinheiro no
banco. E doido por ela… Era engraçado! Os outros, todos os outros,
não era amor, só queriam com ela dormir, apertá-la em seus braços,
beijar sua boca, suspirar em seu seio. Os outros, todos os outros,
sem exceção. Velhos ou moços, bonitos ou feios, ricos ou pobres.
Os de agora, os de antes, todos os outros. Sem exceção? Menos
Clemente. Bebinho talvez, mas era um menino, que sabia de amor? Seu
Nacib, ah! esse sabia de amor. Também ela sentia por ele uma coisa
por dentro, diferente da que sentia por todos os outros. Com todos os
outros, sem exceção, nenhuma exceção, nem mesmo Clemente, nem
mesmo Bebinho, era só para dormir. Quando pensava num moço, para
ele se ria, Tonico ou Josué, Epaminondas, Ari, só pensava em tê-lo
na cama, em seus braços gemer, morder sua boca, seu corpo fruir. Por
seu Nacib sentia tudo isso também e mais do que isso: dele gostava,
de ficar junto, de ouvi-lo falar, de cozinhar comida picante para ele
comer, de sentir sua perna na anca, de noite. Dele gostava na cama
para aquilo que na cama se faz em vez de dormir. Mas não só na cama
nem só para isso. Para o resto também. E, para o resto, só dele
gostava. Para ela seu Nacib era tudo: marido e patrão, família que
nunca tivera, o pai e a mãe, o irmão que morrera apenas nascido.
Seu Nacib era tudo, tudo que possuía.” (AMADO, 2012, p. 259-260)
Relicário
domingo, 19 de fevereiro de 2017
sábado, 18 de fevereiro de 2017
sábado, 7 de janeiro de 2017
Lágrimas de um violão
Meu violão calado
Solto
Abandonado
Sofre silenciado
A falta do seu cantor.
Nas mãos dele
Cantigas belas
E assim ele espera
Novos versos para compor.
Meu violão calado
Triste
Amordaçado
Sozinho naquele quarto
Sente a falta do seu calor.
Violão amado
Não sofras com este fardo
Também necessito daquele ingrato
Para afastar de mim essa dor.
Em suas mãos
Bem aventurado
Podes cantar um doce fado
E inebriar-me de amor.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Janela da (minha) vida
Palavras.
Atos.
E silêncio.
Distância.
Atos.
E silêncio.
Distância.
Desconfiança.
Pensamentos...
Um fantasma pessoal.
Mundo estranho...
Estranho o mundo...
Imundo.
Gente que não sente.
Um fantasma pessoal.
Mundo estranho...
Estranho o mundo...
Imundo.
Gente que não sente.
Estranha gente...
Serpentes!
Coração fugaz.
Eu quero é paz...
Para dormir (sozinha).
Serpentes!
Coração fugaz.
Eu quero é paz...
Para dormir (sozinha).
domingo, 23 de outubro de 2016
Macau
Bravio sal que lava
minha alma e afasta todo mal
Atrás de ti eu fui
e tanta gente desterrei dos meus caminhos
Limpos e áridos
Terra salgada onde
só pulsa o meu coração
Imune eu sou ao teu
poder, óh grande sal
Sal do mal
Sal do sol
Sal dos meus amores
Admirada eu fico a
te olhar
Brotando brando e
branco, brilhoso em seu lar
Sal de Macau
Sal do Rio Grande deste
norte do meu país
sexta-feira, 7 de outubro de 2016
Gueixa moderna
Não é pela beleza
Não é por paixão
Não é por amor
Tampouco tesão
É por sua presteza
Por pura submissão
Gueixa moderna
Submissa e externa
Se deixa usar
Sem compaixão.
Amor próprio não
tem
Se tivesse não
ficaria
Nem se entregaria
Sem limites ou
segurança
A um homem que
nenhuma esperança
Lhe dá no seu “bom
dia”.
Seu cheiro não o
agrada
Seu sorriso não o
prende
Sua boca não o
amarra
Sua pele ele nem
sente
Mas acredita
Louca e
descompassada
Que essa crise tão
amarga
Em breve, deixará
de ser presente.
Tão louca se
encontra
Que vive de migalhas
Fecha os olhos e
abafa
A dor e suas
lágrimas
Nesta dura traição.
Lava e engoma
Arruma a casa
Paga as contas
Organiza as favas
Dessa vexatória situação.
Não tem mais vida
Mas tem o Homem
E não percebe, a
humilhada
Que precisa é ser
amada
Ter pra si um
coração.
E não percebe, pobre coitada
E que a dignidade de uma mulher
E que a dignidade de uma mulher
É mais que ser amada
E não está no casamento
E não está no casamento
E sim no doce provento
Sem necessidade de conselho
Olhar-se no espelho
E amar tudo aquilo que ela é.
Olhar-se no espelho
E amar tudo aquilo que ela é.
domingo, 18 de setembro de 2016
Um brinde ao sucesso!
Declaro hoje a
vitória dos meus algozes.
Ele, com violência;
Ela, com falsidade e
resiliência;
A outra, com
intrigas e perseguição.
Cada qual a seu
modo,
Mantendo-se fiéis
ao caráter que carregam,
Podem por fim
desfrutar do amargo vinho da vaidade.
Tudo se acabou.
Desnudam-se de suas
armas!
Despeçam-se dessas
trincheiras!
Acabou! Inês é
morta...
E morta também está
essa guerra.
A batalha diária de
vocês, soldados, recebe hoje os louros do triunfo.
Não há mais nada
que perseguir.
Não há mais
ninguém a vigiar.
Envaideçam-se de
sua conquista!
O objetivo fora
plenamente alcançado.
As lágrimas no meu
rosto são champagne em seu pódio amaldiçoado.
Meu corpo em sangue arqueja quase sem vida.
Minhas forças
volatizam com as ilusões que já não tenho.
Arrancaram meu
coração
Expuseram-no em
praça pública.
Cada qual a seu modo
me destruiu pouco a pouco.
Comemorem!
Comemorem, meu
algozes, vocês podem!
Brindem
o sucesso de suas investidas!
Ele teve sua
vingança.
Pode finalmente ver meu sangue se esvaindo pouco a pouco
Minha morte em agonia revitaliza seu viver.
Ela tem de volta a posse indubitável de seu troféu
de ouro e esmeraldas
Desfila triunfante,
exibe-o amorfo ao seu lado.
Seu posto de
imperatriz continua intocado.
A outra, mesquinha e
asquerosa,
Por
que se envolveu nesta guerra?
O que importa?!
O que importa?!
Importante é também comemorar!
Pois sua mão foi uma das
que puxou o gatilho do meu fim.
Sorriam, afinal! Brindem!
Vocês venceram!
Vocês venceram!
O ódio venceu o
amor.
A ganância venceu a
paixão.
A ignorância venceu
o perdão.
A brutalidade venceu a racionalidade.
A brutalidade venceu a racionalidade.
A perversão venceu
a prosperidade.
E assim morreu a
minha esperança.
E assim morreu uma
flor...
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