domingo, 19 de fevereiro de 2017

Gabriela


“Nunca pensou ofendê-lo, jamais magoá-lo. Seu Nacib era bom, melhor não podia ser, no mundo não havia. Gostava dela, bem-querer de verdade, loucura de amor. Um homem tão grande, dono de bar, com dinheiro no banco. E doido por ela… Era engraçado! Os outros, todos os outros, não era amor, só queriam com ela dormir, apertá-la em seus braços, beijar sua boca, suspirar em seu seio. Os outros, todos os outros, sem exceção. Velhos ou moços, bonitos ou feios, ricos ou pobres. Os de agora, os de antes, todos os outros. Sem exceção? Menos Clemente. Bebinho talvez, mas era um menino, que sabia de amor? Seu Nacib, ah! esse sabia de amor. Também ela sentia por ele uma coisa por dentro, diferente da que sentia por todos os outros. Com todos os outros, sem exceção, nenhuma exceção, nem mesmo Clemente, nem mesmo Bebinho, era só para dormir. Quando pensava num moço, para ele se ria, Tonico ou Josué, Epaminondas, Ari, só pensava em tê-lo na cama, em seus braços gemer, morder sua boca, seu corpo fruir. Por seu Nacib sentia tudo isso também e mais do que isso: dele gostava, de ficar junto, de ouvi-lo falar, de cozinhar comida picante para ele comer, de sentir sua perna na anca, de noite. Dele gostava na cama para aquilo que na cama se faz em vez de dormir. Mas não só na cama nem só para isso. Para o resto também. E, para o resto, só dele gostava. Para ela seu Nacib era tudo: marido e patrão, família que nunca tivera, o pai e a mãe, o irmão que morrera apenas nascido. Seu Nacib era tudo, tudo que possuía.” (AMADO, 2012, p. 259-260)

sábado, 18 de fevereiro de 2017