“Nunca
pensou ofendê-lo, jamais magoá-lo. Seu Nacib era bom, melhor não
podia ser, no mundo não havia. Gostava dela, bem-querer de verdade,
loucura de amor. Um homem tão grande, dono de bar, com dinheiro no
banco. E doido por ela… Era engraçado! Os outros, todos os outros,
não era amor, só queriam com ela dormir, apertá-la em seus braços,
beijar sua boca, suspirar em seu seio. Os outros, todos os outros,
sem exceção. Velhos ou moços, bonitos ou feios, ricos ou pobres.
Os de agora, os de antes, todos os outros. Sem exceção? Menos
Clemente. Bebinho talvez, mas era um menino, que sabia de amor? Seu
Nacib, ah! esse sabia de amor. Também ela sentia por ele uma coisa
por dentro, diferente da que sentia por todos os outros. Com todos os
outros, sem exceção, nenhuma exceção, nem mesmo Clemente, nem
mesmo Bebinho, era só para dormir. Quando pensava num moço, para
ele se ria, Tonico ou Josué, Epaminondas, Ari, só pensava em tê-lo
na cama, em seus braços gemer, morder sua boca, seu corpo fruir. Por
seu Nacib sentia tudo isso também e mais do que isso: dele gostava,
de ficar junto, de ouvi-lo falar, de cozinhar comida picante para ele
comer, de sentir sua perna na anca, de noite. Dele gostava na cama
para aquilo que na cama se faz em vez de dormir. Mas não só na cama
nem só para isso. Para o resto também. E, para o resto, só dele
gostava. Para ela seu Nacib era tudo: marido e patrão, família que
nunca tivera, o pai e a mãe, o irmão que morrera apenas nascido.
Seu Nacib era tudo, tudo que possuía.” (AMADO, 2012, p. 259-260)

